Brasil: Minas Gerais, Diamantina, Cordisburgo


Ouro de Minas 

Um dos destinos que mais gosto, no Brasil,  é o Estado das Minas Gerais. No inverno, não há melhor lugar para se visitar. Os restaurantes, que servem pratos típicos da gastronomia mineira,  preparados no forno à lenha, são uma perdição. Eu não sou mineiro por erro de cálculo. Tudo aqui me encanta. A doçura do povo, a arte, a gastronomia, as cidade coloniais, o agitado festival de inverno de Ouro Preto. Enfim, adoro estar em Minas. Como conheço boa parte do Estado, tenho um amplo repertório a ser compartilhado. Quero começar pela cidade de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha

Centro Histórico de Diamantina

Igreja N.Sra do Carmo

Casa de Xica da Silva

Diamantina, Centro Histórico

Fui muitas vêzes a Tiradentes, Congonhas do Campo, Ouro Preto, Mariana, Sabará, que estão nas regiões sul e sudeste de Minas Gerais. Desta vez, queria conhecer a terra de gente como Xica da Silva, Juscelino Kubitscheck e Guimarães Rosa.  Fui de avião de São Paulo, capital, a Belo Horizonte, cerca de 60 minutos. Aluguei um carro e segui para o norte. Meu roteiro, ir direto a Diamantina, e voltar parando em outros pontos interessantes da região, como Cordisburgo, terra de Guimarães Rosa, Três Lagoas, até chegar em Ouro Preto, para o festival de inverno.
Diamantina não tem o charme, ou os atrativos, das cidades ao sul de Minas, mas tem a história de personagens famosos, que compensam a viagem. A começar por Francisca da Silva de Oliveira, ou Xica da Silva, a escrava alforriada,  nascida e criada no Arraial do Tijuco, hoje Diamantina. Ela nasceu em 1732, filha de um português, Capitão das Ordenanças, Antônio Caetano de Sá, com a escrava Maria da Costa, de origem africana, da Costa da Guiné, que lhe rendeu beleza ímpar. Sua fama, deve-se a união, consensual, com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com quem teve treze filhos. O casarão, onde viveram a harmoniosa união, hoje é um museu. Localizado na Praça Lobo de Mesquita, é aberto, diariamente, à visitação. Supreendentemente, não há muitos itens que pertenceram a ela. O casarão tem, apenas, alguns quadros e móveis. Mas vale a visita. O imóvel está em ótimo estado de conservação, e oferece uma vista privilegiada  da cidade.


Casarão de Xica da Silva





Xica da Silva, pintura óleo Sobre Tela, de Marciel Ávila

Ela morreu em 1796, aos 64 anos. Deixando uma história intrigante, que já foi contada em verso, prosa, peças musicais, foi tema  de escola de samba e virou filme. Na televisão, a extinta  TV Manchete, fez uma versão em telenovela, com Taís Araújo como protagonista. No cinema, foi Zezé Motta a intérprete, já como atriz consagrada.

Taís Araújo e Zezé  Motta em versões diferentes de "Xica da Silva"

Ao conquistar o amor e a dedicação do homem mais importante da côrte, Xica da Silva teve que ser aceita, mesmo a contragosto, por quem a olhava como uma simples ex-escrava. Tinhosa, chegou a mandar construir uma igreja, somente para que ela pudesse ir sozinha, quando quisesse rezar, a atual Igreja do Carmo.

Igreja do Carmo

Reza a lenda que, o contratador João Fernandes de Oliveira, cobria-lhe de jóias. Era uma das mulheres mais bem vestidas do seu tempo. No site minasgerais.com.br outras informações, sobre o casarão de Diamantina, e da vida de Xica da Silva.


Diamantina também é o berço de outra personalidade ilustre, de nossa história recente, Juscelino Kubitscheck, o homem que construiu Brasília,  transformando-a na Capital Federal do país. 
Foi com muito pesar que fiquei sabendo, quando comecei a escrever esse post, que a Casa Museu, onde Juscelino passou sua infância, encerrou as atividades, por falta de repasse de verbas, por parte do governo Estadual, em fevereiro de 2019. Um país que não guarda e preserva suas memórias, nunca será levado a sério. Eu tive a sorte de conhecer seu acervo, antes do encerramento das atividades. Político visionário, tinha um arrojado projeto de desenvolvimento para o país. Ele dizia que faria em cinco anos, o que outros não fariam em cinquenta. Nesta missão, trouxe para o Brasil importantes empresas internacionais, como a Chrysler e a Ford. Mas esta política de crescimento, à jato, tentando alinhar o Brasil aos Estados Unidos, provou ser catastrófica. Isso porque, Juscelino contraiu vários empréstimos internacionais, que colocou o país em um endividamento sem precedentes. Sua trágica  morte, em 1976, no Rio Centro, é envolta em mistério. Em 2013, a Comissão Nacional da Verdade de São Paulo, concluiu que Juscelino foi assassinado, na rodovia Presidente Dutra, seu carro, desgovernado, bateu contra um ônibus, cruzou a pista e bateu novamente contra uma carreta.
O presidente da comissão, Gilberto Natalini, disse ter mais de 90 indícios de que “JK foi vítima de complô e atentado político”. 
Nosso interesse aqui é o turismo. Então vamos até a casa onde nasceu e viveu o menino Juscelino.

Museu Juscelino Kubitschek

 A Casa Museu era extremamente bem conservada, com mãos de ferro, por Serafim Jardim, um senhor de 85 anos, o qual tive o prazer de conhecer. Amigo pessoal de JK, foi Serafim quem o recebeu quando ele retornou dos nove anos de exílio, após seus direitos políticos terem  sido cassados, pelo governo militar, na década de 1960. Serafim administrava o museu com empenho e dedicação, o que ficou evidente em nossa conversa, durante a minha visita. Ele está fazendo o necessário para reabrí-lo.

Serafim Jardim, administrador do Museu JK

O casarão da rua São Francisco, número 241, guardava boa parte da memória do ex-presidente,  um dos nomes mais importantes da história recente do Brasil. 

O quarto do menino  JK




Entre as milhares de fotos e revistas, estão encontros como o de JK com Getúlio Vargas. 

JK e Getúlio Vargas

Juscelino era formado em medicina. No acervo do museu, era possível conhecer, entre outras curiosidades,  um dos primeiros aparelhos de anestesia, da década de 1930. Na vida pública, antes de se eleger  presidente, foi prefeito de Belo Horizonte e Governador de Minas Gerais. Seu apelido de infância era Nonô. No pátio externo ainda há uma jabuticabeira, onde, Serafim comenta,  "Nonô gostava de brincar."

1ª Aparelho de anestesia, década de 1930


Prêmios e Comendas expostos no Museu JK

No acervo, inúmeras capas de revistas

Pátio Externo Museu JK

Jabuticabeira onde "Nonô" costuma brincar.

No centro histórico, na Praça Juscelino Kubitschek, uma estátua,  em tamanho natural, mais uma homenagem a JK.



No dia seguinte, fui para Cordisburgo, cidade de Guimarães Rosa. A casa onde o escritor de o "Grande Sertão:Veredas" nasceu, e viveu até sua juventude, guarda alguns dos seus, valiosos, pertences. Incluindo sua máquina de escrever, onde alguns de seus romances foram escritos.

Museu Guimarães Rosa, em Cordisburgo

Guimarães Rosa







João Guimarães Rosa, era poliglota, conseguiu a façanha de estudar vários idiomas ao mesmo tempo. Além de escritor, ele era médico. Formou-se em medicina, com apenas 22 anos, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Além de ter sido um dos mais importantes escritores brasileiros, também seguiu carreira diplomática. Foi o terceiro escritor a ocupar a cadeira de número 2 da Academia Brasileira de Letras. Tomou posse na ABL no dia 16 de novembro de 1967. Faleceu três dias depois, vítima de infarto, aos 59 anos, no auge de sua carreira. Confira o site do museu: secult.mg.gov.br


Após visitar o museu, vale conhecer a "Gruta de Maquiné", a poucos minutos de distância. A gruta foi descoberta em 1825, pelo fazendeiro Joaquim Maria Maquiné, 
então proprietário das terras. Foi pesquisada a partir de 1834 pelo naturalista dinamarquês Peter Lund, chamado de o pai da paleontologia brasileira. Está aberta para visitação pública desde 1967. A iluminação do lugar faz a visita ficar ainda mais interessante. maquineparkhotel.com.br




Prepare-se: De Belo Horizonte à Diamantina são 291 kms. A estrada é muito boa. Mas é uma distância considerável. Caso pretenda fazer esse roteiro, prefira pegar a estrada pela manhã. Qualquer imprevisto, é mais fácil resolver durante o dia. Há hotéis lindos em Diamantina, prefira os próximos ao centro histórico. Minha opção foi  pelo Pouso da Chica, pousodachica.com.br É possível fazer tudo caminhando. Um dia inteiro na cidade é o suficiente para conhecê-la. À noite, a cidade é bem agradável e tem ótimos restaurantes, com a excelente gastronomia mineira.
Diamantina está a 200 kms de Cordisburgo,  é bem pequena, quase uma vila, não vale a pena passar a noite. O interessante é ir para Cordisburgo pela manhã, saindo de Diamantina, visitar o museu, e a gruta, e seguir para Belo Horizonte, ou Ouro Preto, onde há ótima infra-estrutura. Não deixe de parar num dos quiosques, na estrada, e experimentar os quitutes à base de milho. São excepcionais, recomendo a pamonha recheada com queijo minas.



Próximo post, Tiradentes 


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